Capítulo 21

quarta-feira, 14 de março de 2012

Giulio levanta num rompante e anda pela sala, esbravejando em italiano. É, família complicada e esquisita! Mas Ricardo já está acostumado às esquisitices e loucuras da família. O problema é quando as loucuras ultrapassam o limite da fantasia e entram de sola na realidade…

__Pai, para com isso. A gente não tá te julgando. É só um alerta do que pode acontecer…! Você sabe que pode acontecer.- Ricardo levanta e abraça o pai- Tomara que ninguém se ligue nisso, que nesse seu novo trabalho ninguém lembre de você. Mas mesmo assim, eu acho desnecessário você trabalhar.

__Mas você trabalha, não trabalha? Não para em emprego nenhum, mas trabalha! Eu também quero trabalhar, ganhar meu dinheiro…!

__Você já trabalhou muito, pai. Agora é hora de descansar, curtir!- fala Isadora.

__Descansar? Curtir? Eu ainda não morri, Isadora! Não aguento ficar parado sem fazer nada dentro de casa como um velho!

__Mas, pai… Você tá velho.- explica Isadora- Tá aposentado faz tempo, já deu a sua cota de sacrifício prá esse país…!

Giulio olha para Ricardo, os olhos cheios de lágrimas.

__Sacrifício… Sacrifício é ficar aqui vendo a vida passar…

__Ô pai… Tudo bem, vai dar tudo certo no trabalho novo.- Ricardo abraça o pai- Vai dar tudo certo.

__É claro que vai!- exclama Verônica- Ele vai ganhar um bom salário, vamos sair deste buraco horroroso! A nossa vida vai melhorar, eu sei!

__Verônica, você pode fechar essa matraca, por favor?… Se não tem nada de útil prá dizer, fique calada.

__O dinheiro da aposentadoria é uma mixaria e o seu salário é uma piada! Eu quero melhorar de vida, meu querido!

__Eu também, eu também quero! Mas será que dava prá você dar uma força pro papai só dessa vez?! Para de falar sandices, Verônica!

Verônica faz um muxoxo e sai da sala.

__Ela não faz por mal, filho. Ela só quer o melhor prá nós.

__O melhor prá ela. Cadê o dinheiro que ela te pediu, pai? O que ela fez com o dinheiro que até agora não te pagou?

Giulio se afasta do filho e coça os cabelos grisalhos.

__Vamos parar com essa conversa, Ricardo! Se vai começar a implicar com tua mãe é melhor…

__Ela não é minha mãe. Ela é sua esposa. Só isso.- ele fica irritado e sai da sala.

Ricardo ficou de cara emburrada a tarde toda. Detesta quando diz “sua mãe”! Verônica não é sua mãe! Nunca fez questão de ser. E ele também nunca fez questão que ela fosse. Tudo bem que ela foi boa para Giulio num momento em que ele estava muito carente e sozinho… Mas daí a Ricardo considerá-la como “mãe” é outra estória!…

O relacionamento de Giulio com a primeira mulher não deu certo. E durou muito pouco. O tempo de Ricardo nascer, crescer, ir para a escola maternal e pronto. Tudo acabou. Ele ficou arrasado! A separação dos pais foi um marco doloroso em sua infância. Depois, quando ela morreu, as coisas dentro de sua cabeça ficaram mais confusas ainda…

Ricardo é um tanto cético em relação ao amor, não leva muita fé nele. O exemplo de seus pais fez com que , de certa maneira, ele deletasse esse sentimento… Pois é, ele também é complicado e meio maluquinho!

Mas agora, nesse momento, ele se força a não pensar nos seus problemas domésticos e voltar-se para as fotos que tirou do Inácio Toledo. Sabe que tem uma mina de ouro nas mãos, que pode lhe dar muito dinheiro… Mas sabe também que essa mesma mina pode explodir sobre sua cabeça… O que fazer então? Ricardo não sabe. Só sabe que não pode deixar essa oportunidade passar batida.

Põe as fotos dentro de um envelope e guarda numa gaveta, que tranca a chave. Pronto. Amanhã decidirá o que fazer com elas.

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