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__Senhor Robert Marshall?
__Yes, sou eu.
O homem mostra um crachá.
__Polícia federal. O senhor terá de nos acompanhar até a delegacia.
__Why? Porquê?
__Para prestar depoimento sobre a morte de Oscar Santos.
__Quem?- o rosto do australiano empalidece.
__Nos acompanhe, por favor.
__Mas… Mas eu não conheço ninguém com esse nome…! Aliás, você sabe quem eu sou? Sou Robert Marshall, dono do…
__Queira nos acompanhar, senhor Marshall. Poderá esclarecer tudo na delegacia.
Há três policiais federais junto ao Marshall, que espera a vez para embarcar no avião para Sidney. As outras pessoas observam e cochicham, um tanto assustadas. Não muito distante dali, a esposa de Marshall e os filhos são conduzidos por outro policial. E a expressão no rosto da mulher é de raiva, indignação…
__Não podem fazer isso! Eu sou cidadão australiano!
O policial sorri de leve e segura Robert pelo braço.
__Sabemos da sua condição neste país, senhor Marshall. Por isso mesmo deve nos acompanhar. Espontaneamente.
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Enquanto Robert Marshall é levado preso ( ele ainda não se deu conta que está sendo preso… ), um delegado de polícia está neste momento na sala de Inácio Toledo. Sentado numa cadeira de pernas cruzadas e com um sorriso cínico nos lábios, o jornalista tenta argumentar contra as acusações de mandante do assassinato de Oscar e do suposto roubo do Tropicali…
__Eu sou um homem público, delegado. É natural que apareça toda sorte de notícia a meu respeito!… E eu entendo, pois sou jornalista também. Muitas coisas absurdas são ditas sobre mim. Eu não me aborreço pois sei que são apenas boatos, especulações de gente que não tem mais nada para fazer na vida… Ou na pior das hipóteses, coisa de jornalistas mesquinhos e sem talento. Não me aborreço com as fofocas, mas sim em saber que são colegas meus que as publicam. Isto me revolta!
O delegado sorri e cruza os braços antes de sentar em frente a Inácio.
__Incrível como vocês da imprensa conseguem logo um enredo, uma estória, um argumento…! O senhor, pelo que vejo, é mestre nessa arte!…
__Delegado, isso não é uma brincadeira…
__Mas na minha “arte” também sou mestre, dr. Inácio.
__Não o culpo por falar tão mal de nós, mas não pode generalizar. E como disse, sou uma pessoa pública, estou em evidência quase vinte e quatro horas por dia… É natural que surja este ou aquele boato. Este em particular é absolutamente ridículo! Eu jamais seria capaz de mandar matar alguém! E alguém que mal conheço! Jamais me envolveria numa trama tão absurda e obscura como essa sobre o assalto ao Tropicali…! Aliás, não sei que tipo de participação eu poderia ter em um assalto ao meu próprio hotel…
O delegado respira fundo e diz muito sério:
__Cléo Alves era sua amante, dr. ?
Ele empalidece um pouco, mas seu rosto continua sem expressar nenhuma emoção…
__Não conheço e nem conheci ninguém com esse nome.
__O senhor mandou prendê-la porque ameaçou contar o caso que tinham para sua esposa…. Não foi assim? Me corrija se estiver errado…
__Nunca tive amante, delegado. Sempre fui fiel à minha esposa e devotado à minha família. Esse é um grande absurdo, uma mentira ridícula!
O delegado tira do bolso um papel. É um envelope de papel pardo e está escrito “confidencial” em letras vermelhas… O delegado coloca o envelope sobre a mesa de Inácio.
__Não acho que seja absurdo ou mentira…. Acho que o senhor é que está mentindo.- ele aponta para o envelope- Eu recebi isso hoje pela manhã. Leia, dr. Inácio.
Inácio abre o envelope com calma, sempre muito centrado, tranquilo. Ele lê os papéis devagar sem esboçar nenhuma reação…
__Parece o rascunho de uma matéria…. Sobre o roubo no Tropicali. Não sei por que envolve meu nome nisso. Aliás, quem foi o idiota que escreveu essas barbaridades?
__Barbaridades? O senhor não leu direito, dr. Inácio. Leia de novo.
Inácio passa novamente os olhos pelo papel. Agora sim, ele está muito pálido!…
__Não é uma matéria, dr. Inácio.- diz o delegado levantando- É uma entrevista com Cléo Alves.
__Ela está morta a anos!
__Como sabe disso se acabou de dizer que não conheceu Cléo?- o delegado sorri, dá a volta na mesa e se aproxima dele- Hans Zinner tentou, mas não conseguiu, não é? Ele tentou matar Cléo, como o senhor ordenou… Mas ela conseguiu sobreviver.
Inácio rasga os papéis com uma calma impressionante, os olhos faiscando de ódio…
__Pode rasgar, doutor. É só uma cópia.
__Tudo isso é um grande absurdo! Alguém está tentando me incriminar, denegrir o meu nome! Como delegado o senhor não devia acreditar em provas descaradamente forjadas!
__O senhor está com um baita problema, jornalista. Essa é uma cópia. A entrevista original estará amanhã na primeira página do Diário Carioca…!- o delegado mostra o crachá e um outro papel- O senhor terá de me acompanhar, dr. Inácio.
Inácio dá uma risada.
__Mas era só o que faltava! Aquele jornaleco de quinta categoria querendo me destruir! Claro, só podia ser mesmo coisa daquele tablóide imundo! Aliás, não sei de onde eles tiraram uma estória tão mirabolante como essa….! Eles estão muito fracos de imaginação! Seus jornalistas são uns incompetentes!- há uma pontinha de aflição na voz tranquila dele…
__O que o senhor e eu sabemos hoje, amanhã todos saberão.- ele mostra o papel a Inácio- Terá de me acompanhar até a delegacia para prestar depoimento.
__Saia daqui.- a voz é abafada, carregada de ódio, embora o rosto esteja tranquilo…- Saia da minha empresa, delegado. Não irei a lugar nenhum e o senhor sabe muito bem porquê.
__Um homem inteligente e culto como o senhor, me admira não ter compreendido a gravidade da sua situação, dr. Inácio. Deve me acompanhar à delegacia para esclarecer essas acusações feitas por Cléo Alves Messina.- o delegado sorri- Quanto ao seu “poder”, ele não me atinge. Estou fora do seu alcance, doutor. Se eu fosse o senhor, levantaria desta cadeira e me acompanharia sem reclamar. Quem sabe consegue provar sua inocência?…
__Do que sou acusado, delegado?- a voz dele é firme, porém cheia de raiva…
__Tentativa de assassinato, roubo, sequestro e chantagem.
Inácio ri, sacudindo os braços.
__Meu Deus, isso é um absurdo! Quem me acusa? O Diário Carioca?
__Por favor, não piore ainda mais a sua situação!
Inácio suspira e levanta.
__Sim, vamos lá. Posso ao menos ligar para meu advogado?
__Poderá fazer isso no momento adequado. Vamos?
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