Capítulo 14

terça-feira, 13 de março de 2012

É bem fácil entrar no Tropicali. A primeira vez foi difícil, mas agora Amélia entra numa boa.

E o que ela procura? Bem, uma coisa não saiu de sua cabeça desde que falou com Vítor: os ex-funcionários do hotel. Aqueles que trabalharam nos anos 70, na época do roubo das jóias…

Talvez ainda haja algum funcionário aposentado trabalhando no Tropicali. Amélia está a procura de alguém daquele tempo. As vezes o empregado sabe mais sobre a empresa do que o patrão…

Com um sorriso amigável nos lábios, ela se aproxima da recepcionista.

__Olá! Lembra de mim? Estive aqui entrevistando o dr. Vítor…

__Ah, sim…! A repórter de São Paulo.

__Pois é. Eu gostaria de conversar com alguns funcionários… Você tem um minutinho?- e abre seu bloquinho de anotações…

A moça sorri largamente, toda prosa porque vai dar entrevista.

__Claro, claro! Pode perguntar à vontade.

__O Tropicali ainda tem algum funcionário antigo trabalhando?

__Como assim funcionário antigo?

__Algum com mais de trinta anos de casa, que ainda trabalhe aqui… Você sabe dizer?

__Bom, trabalhando, trabalhando…não tem não. Mas tem o seu Oscar, que vive por aí, fazendo uma coisinha ou outra… Ele tá quase se aposentando, já tem uns trinta e poucos anos de hotel…

__E eu posso falar com ele?

__Claro. Ele deve estar no refeitório agora. Ele gosta de almoçar cedo.

__E o refeitório fica…?

__À sua direita, na ala de serviço.- a expressão no rosto dela é de decepção…- E quanto a minha entrevista?

__Não se preocupe, eu vou voltar para conversar com você sobre o atendimento aos hóspedes.

A moça sorri, mais animada.

__Certo, legal!

 

Capítulo 15

Fácil encontrar o Oscar. De cabelos grisalhos, corpo encurvado e uma voz fraca, o homem discute com a servente por causa de lugar à mesa do refeitório…

Amélia se aproxima dele com um sorriso.

__Oi, seu Oscar! A gente pode conversar um pouquinho?

Ele olha para Amélia com a testa franzida.

__Quem é você?

__Eu tô fazendo uma reportagem sobre os anos 70… E sobre os hotéis daquela época. Queria conversar com o senhor sobre o Tropicali. Pode ser?

Oscar dá uma olhada de cima abaixo para Amélia, ajeita os óculos sobre o nariz e diz:

__É jornalista, moça?

__Sou.

__De que jornal?

__De uma revista de turismo.

__Ah, sei… E quer saber o quê?

__Como era o Tropicali nos anos 70, como era trabalhar aqui naquele tempo… Que tipo de pessoa se hospedava aqui, das estórias… Enfim, quero saber um pouco da estória desse hotel do ponto de vista de seus funcionários. Podemos conversar sobre isso?

__Ah, tudo bem.- ele senta num banco perto da janela- Senta aí, menina. Tem muita coisa prá contar…! Muitas estórias…

Amélia senta ao lado dele, pega a caneta e abre seu bloco.

__Pode falar, seu Oscar. Sou toda ouvidos!

Ele sorri, agora parecendo menos ranzinza.

__Eu me aposentei depois de trinta e dois anos de trabalho. Mas continuei trabalhando, por mais dez…! Agora, quase não faço nada… Acho que não tenho mais utilidade aqui.

__Trinta e dois anos!… Muito tempo, quase uma vida…! O senhor deve saber de muitas estórias deste hotel…

__Sim, muitas estórias! Estórias boas e más. O que quer ouvir primeiro: as boas ou as más?

__As boas, claro.

O homem dá uma risadinha, batendo na mão dela.

__Eu sei de cada coisa! Certa vez, se hospedou aqui um artista estrangeiro…

E ele começa a desfiar um rosário de estórias e fofocas, que parece não ter fim…! Mas amélia é forte, não desiste! Ela fica firme, finge prestar toda a atenção no que ele diz, finge anotar cada palavra…! De repente ele para de falar.

__A vida era boa naquele tempo, não?- ela comenta diante do silêncio dele.

__Muito boa.- el parece triste, melancólico…

__E as más estórias, seu Oscar?

Ele respira fundo e encara Amélia muito sério.

__Nem imagina, moça.

__Lembra de alguma bem complicada, algum problema com os hóspedes…?- ela pergunta só para puxar o assunto…

__Sim, tinha sempre problema com os hóspedes!

__Algum escândalo?…

__Volta e meia, tinha um escândalo por aqui… Essa gente de cinema, sabe? Esse pessoal adora um escândalo, uma confusão!…

__Ainda mais em plena ditadura!

__Pois é.

__Ouvi falar que teve um roubo no hotel… As jóias de alguns hóspedes foram roubadas…

__Ah, isso.- ele se ajeita nervosamente no banco e tira os óculos- É, teve um tumulto no hotel por causa de uma manifestação de estudantes… Os militares entraram em choque com os estudantes… As ruasviraram uma praça de guerra…! Os funcionários espalharam que estavam saqueando as lojas e casas do bairro… Os hóspedes entraram em pânico, acharam que iam saquear o hotel também…! Foi uma loucura! Alguns hóspedes exigiram que o dr. Vítor transferisse seus bens para um cofre de banco…- ele dá um suspiro- Foi um corre-corre danado! O dr. Vítor quase não conseguiu resolver a situação…

__Então as tais jóias foram para o cofre de um banco?

__Isso eu não sei dizer, moça. Só sei que muitos hóspedes pediram prá guardar suas jóias no banco e o dr. Vítor tentou dar jeito na situação.

__O senhor lembra de algum hóspede que tenha feito isso?

__Bem, eram muitos… A maioria estrangeiros. Mas alguns ficaram tranquilos, não se abalaram com os boatos de saques… Mas outros se deixaram levar pela loucura dos funcionários, sabe?

__Entendo. Mas o senhor não lembra de nenhum deles?

__Sim, alguns… Os mais nervosinhos, talvez. E também os que ficaram na deles, como se diz hoje.

__Como assim?

__Tinha um grupo de hóspedes que ficou neutro nessa estória… E tinha um grupo que ficou neutro em termos, mas que deu força prá os outros colocarem as jóias no banco…

__Nossa! Que confusão! Será que eu consigo localizar algumas  dessas pessoas prá entrevistar?

__Tá falando dos hóspedes? É, pode ser. Estrangeiros, quase todos.- ele franze a testa pensativo- Acho que alguns voltaram pro Brasil anos depois…

__Sério? E sabe quem são?

__Foi muito marcante prá mim, moça. Eu lembro de alguns, os nomes deles… Certas coisas a gente não esquece, né?...

__O senhor pode dizer, seu Oscar.

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