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Depois de alguns minutos esperando por Vítor na recepção do escritório dele, Amélia finalmente é levada para dentro, onde um homem muito magro e de cabelos brancos a espera sentado numa poltrona vermelha. Ele sorri para ela e diz:
_Como vai, senhorita? Sente-se, por favor.
_Obrigada.- ela sorri de volta e senta em frente a ele.
_Então quer uma entrevista comigo…?
_Sim, eu trabalho para a revista Guia do Turista e estou fazendo uma matéria sobre os grandes hotéis do Rio de Janeiro. O senhor tem um dos hotéis mais antigos da cidade, deve ter muitas estórias interessantes para contar…- ela abre a mochila e tira um bloquinho de folhas amassadas e um lápis- A década de 70 foi muito importante para o nosso país, especialmente para o Rio de Janeiro… O senhor recebeu muitas personalidades importantes na época aqui no Tropicali, não foi…?
_Sim, é verdade. Foram bons tempos, apesar da nuvem negra da ditadura… Meu hotel recebeu muita gente importante, principalmente estrangeiros.- ele dá um suspiro- Turistas, artistas, políticos, milionários… Foi uma época muito boa mesmo.
_Eu soube que houve um roubo no hotel em 72, 73… Foi muito comentado na época. As jóias dos hóspedes estrangeiros foram roubadas mesmo, dr. Vítor?
Ele ri, uma risadinha sapeca, quase um deboche. Olha para Amélia com os olhos verdes arregalados e diz:
_Meu Deus! Ainda lembram disso?! Que bobagem! Não houve nenhum roubo, senhorita! Não sei porque inventaram isso!
_Então não é verdade?
__Claro que não!
__Mas então se as jóias não foram roubadas… O que aconteceu com elas?
_Foram levadas para o cofre de um banco. Eu considerei que o hotel não era seguro suficiente para manter aqueles objetos de valor e mandei que levassem para um cofre.- ele diz com certa convicção- Inventaram essa coisa de roubo porque os tempos eram sombrios, havia muita confusão nas ruas… Mas foi só invenção. As jóias e os objetos de valor dos hóspedes estavam a salvo num cofre, em um banco. Eu posso lhe garantir isso, senhorita.
_As jóias foram entregues aos donos depois, eu creio… Essa estória foi comentada por muitos anos, dr. Vítor. Em que banco as jóias ficaram?
_Quer mesmo falar sobre isso?- ele agora se agita, levantando da poltrona e andando pela sala- Tenho muitas estórias para contar dos áureos tempos deste velho hotel, bem mais interessantes do que essa bobagem!
_Bem, essa bobagem garantiu a fama do Tropicali por um longo tempo… As pessoas se lembram do hotel por causa do roubo, dr. Vítor.
_Acha mesmo?- ele olha para ela de testa franzida- O Tropicali é muito mais do que isso…! Temos tradição, minha cara! Isso vale muito mais do que uma mentira ridícula!- parece indignado.
_Muito bem, vamos falar dos hóspedes famosos que o senhor recebeu nesses quase sessenta anos do Tropicali… Alguma estória interessante, dr. Vítor?
Ele sorri, parecendo mais aliviado por ela mudar o foco da entrevista.
_Sim, muitas estórias! Eu lembro de uma muito interessante e engraçada…
Capítulo 8
Amélia ouviu pelo menos seis estorinhas que Vítor contou com incrível animação… Durante uma hora, talvez uma hora e meia, ela fingiu prestar a maior atenção ao que ele dizia, sorrindo e comentando vez por outra. Ao mesmo tempo pensava numa forma de voltar ao tema do roubo… Então, do nada Amélia lembra o nome do banco para onde supostamente as jóias foram levadas.
_Banco Intercontinental.- ela diz, de repente.
_O quê?
_O nome do banco onde as jóias ficaram. O senhor falou em Londres e eu lembrei do Banco Intercontinental, que pertence a empresários ingleses…- Amélia sorri e anota no bloquinho- Acertei?
_Na mosca.- ele fica sem jeito- Eu mandei as jóias para o Intercontinental, por recomendação de Phillip Walters, um dos donos… Pode confirmar com ele se quiser.
_Phillip morreu ano passado, dr. Vítor. Isto não é uma investigação policial; é uma entrevista. Só falei sobre o roubo das jóias porque foi um fato marcante do Tropicali e achei que o senhor não se incomodaria em tocar no assunto…
_Mas eu não gosto de falar sobre isso. É tudo uma grande bobagem, uma mentira idiota que só serviu para denegrir a imagem do meu hotel!- ele quase grita, exaltado, agitando os braços magros- Alguém muito perverso inventou essa estória baseado num mal-entendido e deu no que deu!
_Mal-entendido? Que mal entendido?
_Um empregado do Tropicali ouviu um comentário de outro empregado sobre um assalto em um hotel… Um hóspede confundiu tudo, achou que o assalto tinha sido aqui…! E outros empregados se encarregaram de aumentar essa fofoca, causando pânico entre os hóspedes! Por precaução, eu resolvi mandar as jóias dos hóspedes para o cofre do Intercontinental.- ele senta novamente na poltrona- Foi isso que aconteceu. Por mais que se explicasse, ninguém acreditava que as jóias não tinham sido roubadas!…
Amélia faz anotações no seu bloquinho, pensando que talvez esteja com o fio dessa meada nas mãos…
_Agora vão acreditar, dr. Vítor. Vou colocar isso na matéria. Se o senhor autorizar, é claro.
Ele cruza os braços, muito sério.
_Por mim, tudo bem.
Amélia levanta.
_Posso voltar amanhã para tirar algumas fotos do hotel e continuarmos essa conversa?
_Claro, claro.. Seu nome é…?- ele levanta, aperta a mão dela com gentileza.
_Andréa Ramos. Então até amanhã, dr. Vítor!
Capítulo 9
Amélia segue para o Banco Intercontinental. Seu “faro” jornalístico não falha nunca! Phillp Walters morreu, mas seus sócios David Miller e Robert Marshall estão vivinhos da silva!
É com eles que ela vai falar agora. E é fácil, fácil: mostra o crachá da imprensa e consegue entrar no escritório do gerente.
_Dr. David está nos Estados Unidos, em férias com a família. Qual o assunto que quer…
_E o dr. Robert?- ela interrompe o sujeito.
_Também não está no Rio. Qual o assunto…
_Sabe quanto eles voltam?
_O dr. David só retorna em dezembro. E o dr. Robert talvez neste fim de semana.- ele sorri- Pode adiantar o assunto da reportagem?…
_Na verdade não. Prefiro falar diretamente com o dr. Robert ou com o dr. David.
_Impossível. Eles são muito ocupados e quase nunca dão entrevistas!
Amélia se aproxima do gerente.
_Impossível não existe prá mim. Impossível é pros incompetentes. Eu não sou incompetente. Você é?
Ele se empertiga todo dando um sorriso de falsa confiança.
_Não mesmo! No meu trabalho as coisas são…
_Então você pode conseguir essa entrevista prá mim! Pode me dar o telefone dos chefões, por exemplo…
_O telefone não. Ninguém tem o número deles. Mas todo mundo sabe onde o dr. Robert passa os fins de semana…
_Onde?
_Em Angra, é claro! Ele tá lá com a família desde sábado passado… Num daqueles condomínios chiques, sabe?
_Sei… Valeu pela informação, amigo. Quem sabe eu não mencione seu nome na reportagem?- ela diz saindo da sala rapidamente antes que as coisas se compliquem…
Próxima parada: Angra dos Reis! Está na pista certa. Se Robert não confirmar o que Vítor disse, é porque tem coelho nesse mato…! Amélia nem avisa aos pais que vai para Angra, muito menos ao seu chefe na redação. Ela não quer perder tempo! Já são duas horas da tarde, talvez chegue em Angra a noite… Tudo bem. Vale o sacrifício. Aliás, ir para Angra não é nenhum sacrifício para ela… Com esse calor que anda fazendo no Rio,pegar uma praia até que não é má idéia…!
_Sai prá lá, tentação!- ela pensa já dentro do ônibus para Angra- Isso é trabalho, Amélia!
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